Como valorizar seu leite
Programa Nacional Melhoria da Qualidade do Leite
O Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite (PNQL) quer mudar a forma de se produzir leite no Brasil. Seu objetivo é priorizar a qualidade para que a população consuma produtos lácteos mais nutritivos, seguros e saborosos, além de criar boas condições de trabalho e rendimento aos produtores.
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) publicou, em 2002, a Instrução Normativa 51, tornando esta norma obrigatória nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul a partir de 1º de julho de 2005, e nas regiões Nordeste e Norte a partir de 1º de julho de 2007.
1. Equipamentos para refrigeração
O leite cru deverá ser refrigerado na propriedade rural. Os produtores deverão usar tanques de refrigeração por expansão direta, desde que o leite seja mantido abaixo de 7º C por, no máximo, 48 horas.
2. Transporte
O leite cru refrigerado deverá ser transportado a granel da propriedade para a indústria, em tanques rodoviários isotérmicos. Já o produto não-refrigerado poderá ser transportado em latões, desde que chegue à indústria até duas horas após a ordenha.
3. Análise do leite
Mensalmente, amostras do leite de cada produtor deverão ser enviadas pela indústria para análise, realizada na Rede Brasileira de Laboratórios de Controle de Qualidade do Leite (RBQL). Os produtores receberão o resultado de suas análises. Assim é possível acompanhar a qualidade do leite em cada propriedade rural, exigindo que os eventuais problemas detectados sejam resolvidos.
4. Análises a serem realizadas pela RBL
Contagem Bacteriana Total (CBT)
Contagem de Células Somáticas (CCS)
Determinação dos teores de gordura, lactose, proteína, sólidos totais, sólidos desengordurados
Pesquisa de resíduos de antimicrobianos
5. Limites de contaminação bacteriana
Bactérias são popularmente conhecidas como micróbios e se alimentam dos componentes do leite, causando prejuízos para produtores, indústrias e consumidores. Sua presença está em todos os lugares: na água, poeira, terra, palha, capim, corpos e pêlos das vacas, fezes, urina, insetos, nas mãos do ordenhador e em utensílios de ordenha sujos.
Para se evitar altas contagens bacterianas, é preciso trabalhar com higiene e refrigerar o leite o mais rápido possível após a ordenha, mantendo-o refrigerado na propriedade por, no máximo, 48 horas.
A CBT indica a contaminação bacteriana no leite, expressa em Unidade Formadora de Colônia por mililitro (UFC/mL). Outra análise laboratorial que será feita no leite é a contagem de células somáticas (CCS).
6. Medidas de higiene
Para preservar as propriedades do leite e evitar sua contaminação por bactérias, o produtor deve adotar as seguintes medidas:
Manter a sala ou local de ordenha sempre limpos
Usar roupas limpas para ordenhar as vacas
Utilizar água de boa qualidade (potável)
Lavar as mãos e mantê-las limpas durante a ordenha (de preferência, com luvas de borracha)
Imergir os tetos em solução desinfetante antes e após a ordenha.
Lavar os equipamentos e utensílios após cada ordenha com água aquecida, usando os detergentes de acordo com o manual do fabricante dos mesmos
Trocar borrachas e mangueiras do equipamento de ordenha na freqüência recomendada pelo fabricante, ou quando ocorrerem rachaduras
Lavar os tanques de refrigeração, usando água aquecida e detergentes adequados, cada vez que o leite for recolhido pelo transportador.
7. Refrigeração
Mesmo que produtor mantenha a máxima higiene na ordenha, é provável que ocorra algum tipo de contaminação no leite. Porém se o produto for refrigerado imediatamente após a ordenha, isto vai inibir a multiplicação das bactérias e evitar que o leite seja deteriorado. Por isso, a IN 51 estabelece que o leite deve estar a 4ºC quando estocado em tanques refrigeradores por expansão direta
Os produtores vizinhos poderão utilizar os chamados tanques comunitários, nos quais o leite é armazenado em um mesmo tanque de expansão direta.
8. Tempo de conservação
O tempo máximo de conservação do leite na propriedade é de 48 horas.
9. Controle a mastite
Em caso de mastite (inflamação do úrebe), as células de defesa do animal passam do sangue para o leite em grande quantidade. A função destas células é combater as bactérias que estão causando a mastite. Sempre que o número dessas células (CCS) aumentar no leite, pode-se dizer que a vaca está com mastite.
9.1 Formas de mastite
Clínica
De fácil percepção, pois a vaca pode parar de comer, ter febre e reduzir muito a produção de leite. O úrebe fica inchado e avermelhado, e o leite apresenta grumos, pus e outras alterações.
Geralmente precisa ser tratada, pois a vaca pode transmitir a infecção a outros animais, ou mesmo correr risco de morte.
A Mastite Clínica pode ser detectada pela eliminação dos primeiros jatos de leite de cada teta, em caneca de fundo escuro ou telado. Se assim mesmo houver dúvidas, deve ser feito o teste do CMT.
Subclínica
A Mastite Subclínica não apresenta nenhum dos sintomas da Mastite Clínica, a não ser a redução da produção de leite, que quase sempre passa despercebida. Para sabermos se a vaca está com mastite subclínica, temos que observar se houve um aumento da CCS no leite, uma ferramenta muito importante no manejo do gado leiteiro.
O problema é que quase todos os casos de mastite pertencem a esta categoria, ou seja, só podem ser detectados em laboratórios. Isso faz com que, muitas vezes, o produtor não perceba que tem um problema sério em seu rebanho. Como ele não enxerga a doença, as mastites são de longa duração e causam enormes prejuízos, principalmente pelo leite que deixa de ser produzido, causando redução no seu preço pela indústria.
O MAPA e as indústrias estão preocupados com as conseqüências da mastite no rebanho, pois essa doença altera profundamente a qualidade do leite, reduzindo o rendimento industrial e a validade dos produtos lácteos. Ou seja, a mastite causa prejuízo para todos, desde o produtor rural até o consumidor.
9.2 Envie amostra de leite para análise
Para saber a CCS de suas vacas, pelo menos uma vez ao mês, quando for realizar o controle leiteiro, o produtor pode colher uma amostra de leite de cada vaca e enviar para análise, na Rede Brasileira de Laboratórios de Controle de Qualidade do Leite (RBQL) mais próximo.
9.3 Previna a mastite
Para prevenir a mastite, deve-se seguir uma rigorosa rotina na ordenha:
Manter a máxima higiene (mãos e equipamentos limpos e desinfetados)
Retirar os primeiros jatos de cada teta em uma caneca de fundo escuro, e colocar para o final da ordenha as vacas cujo leite apresente grumos, filamentos, pus ou sangue
Imergir os tetos em solução bacteriana antes da ordenha
Colocar as teteiras em tetos limpos e secos
Ordenhar primeiro as vacas saudáveis (baixas CCS) e, separadamente, as vacas com mastite clínica e as tratadas com antimicrobianos
Imergir imediatamente os tetos em solução bacteriana após a ordenha
9.4 Conheça outras medidas importantes no controle da mastite
Anotar em planilhas simples informações importantes, como a identificação das vacas e dos tetos que tiveram mastite clínica e as datas de ocorrência; o nome dos antimicrobianos usados para o tratamento das mastites e as datas de aplicação; a identificação das vacas e dos tetos que tiveram mastite subclínica (alta CCS) etc.
Descartar vacas com problemas de mastite crônica (recorrente)
Fazer o tratamento em todos os tetos de todas as vacas secas
Assegurar-se que animais comprados não estejam com mastite
10. Conheça a análise da composição do leite entregue para a indústria
Além de determinar a CBT e a CCS no leite cada produtor rural, os laboratórios da RBQL ainda vão analisar a composição do leite entregue para a indústria. Os componentes do leite, com exceção da água, constituem os sólidos totais e são responsáveis pelo seu valor nutricional. O teor de sólidos no leite determina o seu valor industrial, pois quanto mais gordura e proteína, maior o rendimento que a indústria terá ao fabricar os derivados lácteos.
Conheça alguns fatores que podem interferir na produção e composição do leite:
Raça
Estágio de lactação
Herança genética
Porção e intervalo entre as ordenhas
Estação do ano
Saúde da vaca
Mastite
11. Alimentação das vacas
As vacas devem receber uma dieta equilibrada à base de alimentos volumosos (pastagens, fenos, silagens) de boa qualidade, além de uma suplementação com alimentos concentrados, de acordo com o seu potencial genético.
O produtor rural deve planejar a produção de alimentos para o ano todo, a fim de evitar que o rendimento e a composição do leite sejam prejudicados em determinadas épocas.
12. Saiba por que o leite pode ser contaminado por medicamentos antimicrobianos
Finalmente os laboratórios da RBQL vão pesquisar se o leite vendido pelos produtores rurais no Brasil apresenta contaminação com resíduos antimicrobianos, que são medicamentos extremamente eficientes no combate a micróbios causadores de doenças nas vacas, desde que utilizados corretamente, sob orientação de um Médico Veterinário. Estes incluem antibióticos, sulfas e outras bases farmacológicas.
Quando um antimicrobiano é aplicado em uma vaca para combater uma infecção, o leite que ela produz passa a conter resíduos do medicamento por um determinado tempo. Durante esse período, o leite não deve ser aproveitado ou comercializado, sendo muito importante verificar e seguir as informações do fabricante do medicamento.
Tratamentos para curar ou prevenir a mastite são os principais responsáveis pela contaminação do leite por antimicrobianos. Prevenindo essa doença, o produtor corre menos risco de contaminar sua produção com essas substâncias.
Leite com resíduos de antimicrobianos não deve ser comercializado porque pode:
Sensibilizar e causar reações alérgicas nos consumidores
Desenvolver resistência em bactérias causadoras de doenças
Inibir ou interferir no crescimento dos fermentos usados na produção de queijos e iogurtes, causando um enorme prejuízo à indústria de laticínios e aos produtores rurais
Para evitar problemas com antimicrobianos no leite, o produtor rural deve:
Aplicar antimicrobianos somente nos casos recomendados pelo Médico Veterinário
Marcar as vacas tratadas com pulseiras, carimbos ou outra forma de identificação para que todos os envolvidos com o rebanho, saibam que o leite deve ser descartado
Anotar em planilhas simples, ao alcance de todos, o dia e a hora do tratamento, o medicamento usado e o prazo de eliminação do produto no leite, escrito na bula
Fazer o tratamento de “vaca seca” em todos os animais 60 dias antes do parto, observando o período de ação do produto para evitar resíduos no leite após o parto
13. Faça o cadastro na indústria de laticínios
O MAPA criou o Cadastro Nacional de Produtores de Leite, no qual todas as indústrias de laticínios deverão cadastrar todos os produtores rurais que lhes fornecem leite. Uma vez cadastrado, cada produtor será monitorado pelo MAPA enquanto estiver produzindo leite no Brasil, mesmo que passe a vender para outra empresa. Com isso, o MAPA vai fiscalizar a qualidade do leite em cada propriedade rural do país, garantindo alimentos lácteos seguros à população.
14. Conheça o controle de qualidade feito pela indústria
Cada indústria deverá ter seu próprio programa de controle de qualidade do leite crua refrigerado, onde estará definido quem vai coletar as amostras de leite para envio aos laboratórios da RBQL. Após a análise do leite, os resultados serão enviados ao MAPA e também para as indústrias, que deverão apresentá-los à cada produtor.
Em um primeiro momento, os produtores serão orientados quando um resultado isolado estiver fora dos limites estabelecidos. O MAPA vai sempre avaliar as “médias geométricas” da CCS e da UFC dos últimos três meses de análise, tempo suficiente para que produtores e indústrias possam tomar as devidas providências para evitar problemas com a qualidade do leite. O MAPA estabelecerá os critérios a serem adotados para os casos de resultados fora dos limites estabelecidos.
15. Práticas de manejo na obtenção do leite
Todas as práticas de manejo que garantem a obtenção de leite de alta qualidade na fazenda, aumentam a rentabilidade da propriedade rural
Leite com baixa CBT indica que o produto foi obtido com higiene e conservado adequadamente, o que evita perdas por leite ácido
Leite com baixa CCS indica que as vacas não têm mastite, o que evita quedas na produção e melhora o rendimento industrial do leite
Leite com altos teores de sólidos significa que as vacas estão sendo bem alimentadas, o que aumenta a produção individual e total do rebanho
Leite sem resíduos de antimicrobianos representa uma boa prevenção de doenças e do controle do descarte de leite contaminado, reduzindo as chances de penalidades por parte da indústria
Além de tudo isso, as indústrias de laticínios estão valorizando o leite de melhor qualidade, premiando aqueles produtores que investem neste quesito.
Melhorar a qualidade do leite não é uma opção, é um compromisso de quem produz. E produzir alimentos seguros é garantir saúde à população. Cada um de nós deve fazer a sua parte!